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Desencanto

Desencanto


Leve então
O resto desta ilusão
E todos os cuidados meus
Brinquedos dos caprichos

É pena porque foi tão lindo amar
Sentir você sonhar tão junto a mim,
Ouvir tanta promessa,
Fazer tanta esperança,
Pra hoje ver lembrança, tudo enfim

Nâo passou
De um triste desencanto, amor,
E desde então eu canto a dor
Que eu não soube chorar


Chico Buarque

Marcas

Alinhavei tuas palavras
e cosi-as
junto a meu corpo
rente

sem marcas

E tuas mãos de desvelo
tontas
não mais acharão
o precipício gelado
de perguntas

Jana Kirschner

Inteira



Inteira aqui estou
no aguardo sem memória



de tua imagem alterada




pelos dias de sal
espera



Jana Kirschner

Cuando


Cuando te alejaste
de mí,
se fueron contigo
mis ojos
deshechos entre tus manos.




Jana Kirschner

DE AMOR, PUESTO ANTES ...


DE AMOR, PUESTO ANTES EN SUJETO INDIGNO,

ES ENMIENDA BLASONAR DEL ARREPENTIMIENTO
Cuando mi error y tu vileza veo,

contemplo, Silvio, de mi amor errado,

cuán grave es la malicia del pecado,

cuán violenta la fuerza de un deseo.


A mi misma memoria apenas creo

____________________que pudiese caber en mi cuidado

____________________la última línea de lo despreciado,

____________________el término final de un mal empleo.


____________________Yo bien quisiera, cuando llego a verte,

____________________viendo mi infame amor poder negarlo;
____________________mas luego la razón justa me advierte


____________________que sólo me remedia en publicarlo;

____________________porque del gran delito de quererte

____________________sólo es bastante pena confesarlo.


Sóror Juana Inés de la Cruz

O Mundo Anda Tão Complicado

Queria pedir despupas por não ter respondido, mas com tempo de avaliação, computador quebrado, procura de apê, mudança... vixe! nem dá pra respirar...
bjus :D

Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez

Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.

Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
Que a mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som

Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com meu jeito
Agora que temos nossa casa
é a chave que sempre esqueço

Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um p'ro outro:
- Estou com sono, vamos dormir!

Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor


Legião Urbana

Coisas Pequenas - Madredeus

Coisas pequenas são
coisas pequenas
são tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são
coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar.


Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é
coisa pequena
que nada é maior que amar.


E a hora
que te espreita
é só tua.
Decerto,
nao será
só a que resta;
a hora
que esperei a vida toda,
é esta.


E a hora
que te espreita
é derradeira.
Decerto já bateu
à tua porta.


A hora
que esperaste a vida inteira,
é agora.

Poética


O único compromisso da poesia é com a fome. A fome plural e institintiva do homem por sua própria voz, sua própria consciência. Canto de aves cegas. A poesia só reconhece ao sangue. Uma única pétala vermelha no silêncio, na voz da solidão que anseia ser o todo - o poeta."La poesía no es más que un puente que tendemos entre una soledad y otra". (Sabines). Lavourando numa constância de abelhas no mel, segue o fazer poético o poeta. Árduo colhedor de imagens, sons e ritmos. Procura habitar o invisível, transceder a terra e seu úmido casulo. Até onde as cinzas refaçam a vertente de vida brotar no solo árido das palavras. Fruto de sangue.

Escrever na pedra as razões do silêncio. A poesia não conhece outro ofício nem morada.


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Homenagem ao dia internacional da poesia

Um poema é sempre


Um poema é sempre
uma qualquer angústia que transborda.

(E eu posso cantá-lo de amor
posso cantá-lo de ódio
posso cantá-lo de roda...)

Um poema é sempre
como um rebento novo que se desdobra.

(E eu posso cantá-lo ao sol
posso cantá-lo de água
posso cantá-lo de sombra...)

Um poema é sempre
como uma lágrima que se solta.
(E eu posso cantá-lo como quiser:
há sempre uma palavra que me esconda...)


Glória de Sant'Anna - Escritora moçambicana


Homenagem ao dia da poesia (hoje!)

Habito



És minha casa
Em teu corpo habito.

E apenas
Em teu solar
Me reconheço.







Jana Kirschner





Animal


Soy un animal,

no tengo rostro,

no tengo nombre

ní tengo a mí misma todavia.



hacia lo tiempo que

estás alejado...

ahora soy otra.

hecha de silencio y

oscuridad.


nadie puede acercarse de mí

sin ferirse.

ni tu tampoco.



Jana Kirschner

Devaneios


Fabrico os dias como quem constrói palavras. Sonoridades, ecos, silêncios. Cada manhã de sol, uma cintilância. Cada tarde de chuva, um murmúrio.
Na concha de meus ouvidos, tuas palavras de afago produzem mel. Delicada substância que me adoça para ti. Cada palavra como a onda do mar, infinitamente vindo-indo-vindo; mas sempre adiando sua última onda.
Que fina teia teces? Palavras de encantamento que inscreves em minha pele. Alga marinha. Retalhos de um luminoso tecido: tuas canções incritas no vento. Difícil idioma apenas conhecido por nós. Raro. Preciso.
Palavras de doçura, sortilégio de Tu chamando meu nome: única. Aliança tácita que nos une. Nomes.


Jana Kirschner


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Homenagem ao dia de Saint-Valentin.

Xhenhenhém nº1

Todos os dias era a mesma a tua prosa:
"tua amizade é criminosa! Isso assim não me convém"...
Mas logo após essa recusa mentirosa,
todo um mundo cor-de-rosa, um queixoso xhenhenhém...

xhenhenhém...xhenhenhém...xhenhenhém...
- Coisa gostosa é a gente querer bem!

Porém, um dia foi verdade a tua prosa!
E te foste, cautelosa, para o amor que te convém!
São pesadelos os nossos sonhos cor-de-rosa...
Mas que coisa dolorosa, continua o xhenhenhém!

xhenhenhém...xhenhenhém...xhenhenhém...
- Coisa gostosa é a gente querer bem!


Ascenso Ferreira

cerise

Meu sangue sabendo a cerejas frescas,
silvestres,
maduras.

A poesia fremente no teu dorso
passeando em minha boca
cerejas...

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Jana Kirschner

Do amor secreto e sem nome

Postando um texto lindíssimo de meu amigo crítico literário e ficcionista Bruno Piffardini, conhecido também por Lord Piffa...

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Por Bruno Piffardini
Ouvindo Portishead, “All Mine”
E com a memória doce e em p&b de fotos e “Asas do desejo”
E a vontade há muito morta de fazer poesia
E um sabor estranho de cerejas na boca
.



Meu vício e meu bálsamo. Minha paixão desesperada e minha pulsão de morte iminente, gloriosa. Meu tudo nessa música de sinos mudos tilintando em cada partícula da atmosfera que respiramos entre nós. Meu desejo louco por buscar o ar em sua boca, respirar essa música toda que vem de você.


Tudo isso e o segredo do anjo, calado e de preto, que assiste a tudo da solidão de sua colossal estátua favorita. Vendo a trapezista do circo, linda, a voar como ele próprio nunca sequer ousou imaginar que pudesse fazer um dia, e ainda assim esse desejo pelo vôo mortal querendo lhe saltar pela boca. O anjo vê tudo em preto & branco, e colecionava cada estilhaço de tempo como um álbum de fotos. Eles traz todas no bolso do casaco, sobre o coração transparente – as fotos tiradas e as sonhadas. Ele sabe que é preciso morrer para renascer carne trêmula, que a distância entre suas alturas e a de seu anjo trapezista é muito mais longo do que o p&b faz parecer. Ele precisa cair, atravessar nuvens entre uma estrela e outra, num mergulho perdido e indecente em rodopios, porque é maior que os mistérios divinos saber a cor, a temperatura e o gosto de seu próprio sangue, que só descobriu ter após ver a ferida da trapezista.




Alcança-la por baixo de seus véus de carne e desvendar todos os seus mistérios. A palavra que nunca está presente repousa dentro dela, e o anjo caído a implora, a suplica, um mero suspiro que seja diante de sua imensa presença invisível. Ave de carne sutil, plumas de navalhas. Precisando sangrar. Precisando da palavra que nunca revela o seu nome.


O sangue que o anjo caído prova de si mesmo. É o mesmo sangue de sua amada. O mesmo que ele percebia pulsar nela, ao assistir solitário seus pensamentos em preto-e-branco, no vai e vem do trapézio que ela fez de flores quentes e pássaros ensurdecedores. As artérias já estavam entretecidas há tanto tempo, funcionando juntas e bombeando o mesmo segredo, segredo escancarado, vivo e rubro e quente, enxergando, respirando, rastejando, galopando em campos cinzas que se formam entre minha boca e a tua, naquele instante congelado da primeira aproximação de lábios, entre garrafas e poemas que delas vertiam.


Minha trapezista de sonho e divindade, cria poesia a cada movimento do corpo, em cada salto mortal, em cada retorcer de lábios. Leio-as como leio cada mínimo movimento de seus cachos ao sopro do vento. São meu bálsamo, minha cura, minha última tomada de fôlego antes de cada mergulho fatal nesse abismo que separa a lua triste das estrelas. Meu sangue com sabor de cerejas frescas. Entre cachos repletos de poesia. Percorrendo paredes feitas de palavras silenciosas, percorrendo juntos a geografia que traçamos com nossos dedos sobre pele. Sobre palavras. Reconstruo-a, toda noite, com suas palavras, afagando e absorvendo cada letra apaixonada como os anéis de seus cachos. Beijo-as e você me oferece cerejas frescas, e o Paraíso e o retorno ao calor de seu colo. Meu bálsamo. Minha terra. Meu coração ofertado em sacrifício. Meu altar de fotos em preto-e-branco.


Me encontre na nuvem número nove, meu amor. E então me deixe coroá-la de rosas, e residir em seu colo de flores frescas e que nunca morrem.

lo que los labios callam



Com nosso idioma secreto, feito de ausências, vazio e interdito, escrevo no calendário de meus dias a solidão, calculo horas sem destino, plenas de promessas...
Tu, invadindo meus domínios ocultos, adentrando sem pudor meus mais íntimos desejos...
Retorcendo teu nome em minha garganta.






Jana Kirschner

Manos


Tuas mãos ainda

em meus seios,

cheiro,

carne.


Uma flor,

rubra,

desabrochando.



Jana Kirschner

Blooming




Me tocaste.

Iluminadas primaveras



se abriram

em meu ventre.


Jana Kirschner

Pés descalços

Que pretendes ao me dividires assim? Metade de mim é turbulência e inquietação; outra, desterro e devoção.


Em qual parte habito? Me arremesso diariamente no meu ofício - nômade em mim, transito por estas terras. Não estás comigo, trago os pés machucados neste exílio a que me condenaste.


Virás buscar-me? Aguardo tua presença sonora para encher meus horzontes de plenitude. Mas não é nossa hora ainda. Plenilúnios surgirão, emersos do tempo, indicando o momento de nossa mutação. Só a um instante exato me tomarás a ti, transformando os desertos de que sou feita, em teus mares serenos.


Jana Kirschner
Foto: André Gusmão

O que há



Tu sabes que tua pele está em mim. Então por que me chamas? não sabes que já te pertenço desde sempre?
Me chamas a me tens. Sempre e sempre. Não seria diferente agora. Mas por quano tempo seremos capazes de tamanha ausência? Contornos tão baços? Nós no espelho refletimos uma imagem imprecisa, algo entre a razão e o desejo.Quem nos governa?A sanidade há muito já me deixou. E a ti? O que habita me mim é apenas o sopro de tua voz, teus olhos cheios de desejo, mechamando todavia. Tenho um acontecimento nas mãos, estou pelna depromessas e esperança, mas não sei o que há em ti, que me anula, me afasta e chama.

J.